Columbo: Reação Negativa

 Muito bem, esse é o segundo episódio da quarta temporada (1974) - eu disse que não estava assistindo em ordem cronológica! - e o vilão especialmente convidado é... Dick van Dyke.

A trama é simples: um fotógrafo mata a esposa, simula um sequestro e culpa um ex-presidiário, que vinha trabalhando para ele extraoficialmente. Mas, como sempre, o diabo mora nos detalhes: o fotógrafo pediu que o criminoso regenerado comprasse um rancho em seu nome, rancho esse onde ele tirou uma foto da esposa e onde deixou seu corpo. O próximo passo do assassino é deixar a carta de resgate, a máquina fotográfica e outros elementos incriminadores no quarto de hotel do seu novo empregado. Após marcar um encontro casual com o dito cujo num ferro velho, ele o elimina e dá a entender, com um tiro na própria perna, que foi legítima defesa.

Antagonista

A motivação fica clara já nos primeiros minutos do episódio: a esposa o detesta e o humilha constantemente. Mas ficamos sabendo mais adiante que ele também tem um caso com a secretária. Essa dinâmica ilustra muito bem como a história concebe o personagem. Paul Galesko, esse é o seu nome, vai ficando mais antipático com o passar do tempo. Cada vez mais o desprezo de sua esposa vai sendo mais e mais justificado.



Nesse ponto, a escolha de Dick van Dyke é certeira, pois ele tinha uma considerável fama de bom moço na época (quem é mais novo, e que conhece ele de Uma Noite no Museu já não o acha tão insuspeito). A barba branca, que não era parte do seu visual, incorpora um ar de sabedoria, de respeito. Mas a frieza com que ele mata duas pessoas conflita com o que sua imagem simboliza. Numa série com tantos personagens com "cara de vilão", Dick van Dyke como Galesko é uma escolha pouco previsível (ainda bem).

Pistas

O episódio nos apresenta vários elementos que podem servir como o calcanhar de Aquiles desse crime perfeito: o relógio novinho que Galesko esquece no rancho empoeirado, a ligação telefônica realizada pelo seu bode expiatório, o bêbado que estava no ferro velho e ouve os tiros, etc. Columbo investe em todos eles, mas o que define a sorte do criminoso são aqueles detalhes menos óbvios.

Os fãs costumam se exaltar bastante e dizer que o nosso heroi já sabe quem é o assassino assim que bate o olho nele ou na cena do crime. Não é bem assim. Na maioria dos episódios é bem perceptível quando Columbo passa a desconfiar de alguém, por mais sutil que Peter Falk demonstre essa transformação. Aqui, por exemplo, ela ocorre quando ele vê o ferimento de bala na perna de Galesko e nota que tem marcas de pólvora no tecido da calça, ou seja, o disparo foi dado com o cano da arma bem próximo, sendo que em seu depoimento o fotógrafo alega o contrário.



Até então, o caso era tratado como legítima defesa ocasionado por um sequestro. Quando identificam as posses do falecido ex-presidiário, os policiais descobrem o corpo da senhora Galesko no rancho. Ou seja, o marido teria acabado com a única chance de encontrar sua esposa viva ao matar o pretenso sequestrador. Há uma combinação de aspectos técnicos (a marca da bala) e subjetivos (o interesse do esposo da sequestrada) que coloca uma pulga atrás da orelha do detetive.

Os elementos que vão determinar a culpa de Galesko são justamente o jornal, que ele usou para forjar o pedido de resgate, e o meio de locomoção do suposto sequestrador - nessa época, ao ser presa, a pessoa perdia a carteira de identidade. Ele compartilha o raciocínio com um vendedor, um colega policial e com o próprio Galesko: o ex-detento pagou um táxi para ir ao rancho e em outros lugares, mas no dia do sequestro ele fez a prova de habilitação e tirou a carteira, como ele saberia que passaria na prova?

Como se vê, são detalhes simples, mas que fazem sentido. Não são algo forçado. Nesse mérito, os roteiristas estão de parabéns. A grande questão é que, nesse caso, é tudo muito circunstancial, o que nos leva ao momento de catarse de todo episódio: a armadilha.

Clímax

O principal método do Columbo é perguntar coisas bobas, alongar temas sem importância e ao ir embora soltar uma bomba - sua famosa frase toda vez que finge estar saindo é justamente "ah, só mais uma coisa..." - deixando o suspeito tenso. Por fim, ele bola uma arapuca onde o próprio criminoso se incrimina. Aqui ela foi tão bem elaborada que até o espectador deixa passar de primeira.

Baseando na evidente sujeira causada ao se recortar um jornal, ele alega que o morto não poderia ter feito a carta naquele quarto de motel. Lembrando do fato de que o tal sequestrador estava fazendo a prova de direção na hora do sequestro, ele o elimina da cena do crime. Por fim, a foto do resgate prova que a hora do crime era outra, tirando o álibi de Galesko. No entanto, um erro de impressão desabona essa última parte do raciocínio do detetive. Para demonstrar que Columbo está errado o fotógrafo pega o negativo da máquina, que estava numa prateleira da sala de provas ao lado de outras câmeras. Mas como ele saberia qual a máquina fotográfica foi usada pelo criminoso?

Num programa comum, esse seria o momento da catarse, onde o espectador sente o prazer de ver alguém arrogante ser punido, mas o episódio termina em outra nota. Galesko não sai disparando palavrões, ele simplesmente ficar desnorteado e é levado pelos outros policiais, que testemunham sua auto-incriminação, enquanto Columbo fica na sala sozinho em silêncio, próximo da foto da vítima. Não há comemoração, não há expressão de alívio. É quase como se diante de duas mortes por motivos tão mesquinhos, mesmo a prisão do culpado ainda não fosse um resultado satisfatório. Você pegou o cara mau, mas as coisas não melhoraram. É um clímax que, fazendo jus ao título da história, nos deixa uma reação negativa.

Coadjuvantes

Por fim, não há como não se mencionar os maravilhosos coadjuvantes desse episódio. Geralmente em programas policiais ou detetivescos, todos os personagens secundários são apenas peças ou escadas para o protagonista. Aqui não é muito diferente, mas a contribuição deles para a trama vem sempre embalada com personalidade. Se Columbo precisa expor seu pensamento com alguém, isso não quer dizer que a pessoa apenas fará cara de paisagem enquanto absorve tudo acriticamente. 

Columbo está trabalhando com um sargento, que parece bem disposto a ajudá-lo, e reencontra um capitão amigo seu, muito atencioso. Eles ouvem, repassam informações, mas com muita naturalidade. Mas quem rouba as cenas são a freira e o fiscal de trânsito.

Para rever o depoimento do bêbado que testemunhou os disparos, Columbo vai até um abrigo da Igreja, onde é confundido com um indigente por uma freira tão piedosa. Quando ela se esforça pra dar uma roupa nova a ele, temos o seguinte diálogo:

-Não, madame, eu tenho essa capa há sete anos.

-Coitadinho!

Depois, ele vai consultar o fiscal de trânsito que avaliou o possível sequestrador. Mas o homem está nervoso depois de tantos problemas nas ruas e, para piorar, Columbo lhe deu uma carona. Entre as perguntas e barbeiragens do tenente, o pobre fiscal só se chateia mais.



Essa cena ilustra muito bem o problema do coadjuvante protocolar. Se fosse um programa menos criativo, o detetive iria até o departamento de trânsito, perguntaria algo do fiscal, faria cara de quem sacou tudo e sairia de lá. Pá-pum! Aqui foi bolada toda uma sketch ao redor desse interrogatório. A cena continua sendo importante para a trama, só que com um colorido a mais.

Há muitos episódios que os personagens secundários parecem ter sido escritos por Mel Brooks: caricatos, excêntricos e até um pouco conscientes de sua limitação enquanto personagens secundários. Aqui as situações com os coadjuvantes parecem ter sido escritas por Blake Edwards: inicialmente banais, mas desenrolando-se com grandes consequências e, de repente, tudo se resolve.

Não que isso seja um problema.

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