Lições do rosto de pedra

(republicando aqui um texto de 2022 que postei no meu Medium)



Nos tempos do cinema mudo, alguns atores se destacaram no ramo da comédia investindo em personagens. Max Linder na França fazia o dândi e Charles Chaplin o adorável vagabundo. Buster Keaton se destacava por ser o “rosto de pedra”.

Durante as mais absurdas situações, Buster Keaton não esboçava uma só reação em sua face. Não sorria, não franzia o cenho, não mordia o lábio, nada. Mesmo assim o espectador podia prever o que ele estava pensando ou sentindo por meio de seus grandes e quase hipnotizantes olhos.

Nascido Joseph Frank Keaton em 1895 no interior dos Estados Unidos, o ator ganhou o apelido de Buster do grande ilusionista Harry Houdini quando caiu de uma escada num hotel e nem mesmo se arranhou. Buster quer dizer “fenômeno”.

Há muitas passagens interessantes na vida de Keaton, como aquela sobre o furacão. Quando pequeno uma vez ele foi carregado por um furacão. Curioso ao ouvir o som das tábuas do telhado se soltando, o jovem Keaton colocou a cabeça para fora da janela e por pouco foi enviado par ao mundo de Oz.

Muitas dessas circunstâncias foram reaproveitadas por Buster Keaton depois que ele se enveredou na carreira cinematográfica. Há cenas dele caindo pelos degraus de uma escada e até mesmo sendo carregado por um furacão em seus filmes.

Um dado curioso sobre o ator é que por ter nascido numa família de artistas que integravam o mundo do vaudeville, ou seja, do teatro de revista, ele tinha uma gama de habilidades invejável. Acrobacia e timing cômico eram as principais.

Há uma frase de Buster Keaton que condensa muito bem toda sua arte: “Um comediante faz graça das coisas. Um bom comediante faz as coisas terem graça”. A afirmativa está bem longe de ser redundante, ao contrário do que podemos pensar á primeira vista.

“fazer graças das coisas” remete a zombar de algo, enquanto “fazer as coisas terem graça” parece algo mais profundo. Enquanto a zombaria exige muito pouco de nós além de apontar o risível da coisa ou da pessoa, “fazer as coisas terem graça” requer que usemos novas lentes, novas perspectivas.

Vamos dar um exemplo: imaginemos que um homem de nariz proeminente tenta beijar sua amada ou amado, mas não consegue justamente por causa do bendito nariz. Um comediante investiria suas fichas em apontar e exagerar o tamanho do nariz para fazer a plateia rir. Um bom comediante, segundo a perspectiva de Keaton, ridiculariza o próprio ato de beijar. Afinal, uma coisa tão natural quanto lábios se encontrando pode ser bem cômico se você observar sob certo prisma.


É um princípio aplicável ao “rosto de pedra”. A face impassível de Buster Keaton por si só podia não ser cômica, mas contextualizada dentro de alguma situação desconfortável ou bizarra ela se tornava engraçada.

Essa frase de Keaton me remete a outra, essa do filósofo francês André Comte-Sponville. Diz ele que “o humor é uma desilusão alegre” (p. 240). Por desilusão entenda-se uma lucidez para com a vida em si e por alegria um amor por viver.

O pensador em seu Pequeno Tratado das Grandes Virtudes destina algumas linhas a diferenciar o humor da ironia. Segundo ele, o humor é humilde enquanto a ironia é humilhante. Assim sendo,

(…) É preciso que esse riso acrescente um pouco de alegria, um pouco de doçura ou de leveza à miséria do mundo, e não mais ódio, sofrimento ou desprezo. Podemos rir de tudo, mas não de qualquer maneira (p. 233).

A interpretação de Comte-Sponville me parece basicamente o que Keaton queria dizer e, mais ainda, o que ele praticava. Pois o filósofo se ocupa do humor justamente para defendê-lo como uma virtude essencial para uma boa vida.

Nesse ponto gostaria de citar outro filósofo: Michel Foucault. Em sua pesquisa sobre a história da sexualidade, Foucault identificou aquilo que ele chamou de cuidados de si, ou seja, práticas que visavam a transformar o corpo e a mente dos antigos gregos de forma a criar uma estética da existência. Em outras palavras, ter uma vida bela.

Acho que todos concordam que o humor, nos termos definidos acima, seria um cuidado de si muito importante para se criar uma vida bela. Porém, parece contraditório que grandes humoristas tenham na maioria das vezes uma existência trágica.

Esse também foi o caso de Buster Keaton, jogador de poker inveterado que se entregou também ao álcool quando se viu quase escravizado pelo estúdio MGM. O vício o fez perder a família, o dinheiro e quase a sanidade. Mas a sua participação em Luzes da Ribalta ao lado de Charlie Chaplin ajudou a reconquistar a carreira.

Quando faleceu de câncer de garganta em 1966, Buster Keaton pediu que fosse enterrado com um terço numa mão e um baralho de cartas na outra. O motivo? Se fosse para o céu, já teria o terço; se fosse para o inferno, poderia se distrair jogando uma partida de poker.

Decisão que demonstra não só o humor afiado do comediante, mas também certa poesia. Quase como se ele estivesse provando que é possível não só ter uma vida bela, mas também uma morte bela. Que o humor pode cuidar de si e dos outros, inclusive para aqueles que ficam na plateia mesmo depois que o artista saiu dos palcos.

Referências:

COMTE-SPONVILLE, André. Pequeno tratado das grandes virtudes. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade, volume III: o cuidado de si. Rio de Janeiro: Graal, 2009.

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