POR QUE ESTAMOS USANDO VERDE-AMARELO (EM 2026)?
Era 1998 e eu estava
morando em Sepetiba, zona oeste da cidade do Rio de Janeiro. Devia ser a
primeira Copa do Mundo que estava vivenciando conscientemente.
Enfeitaram a rua com
fitas verde e amarelas e minha tia desenhou os principais jogadores no muro em
frente a nossa casa inspirando-se nos personagens dos meus gibis.
Ronaldinho Fenômeno era
Zé Carioca, Cafu era o amigo dele, Nestor; acho que o Pato Donald era o
Taffarel. A Copa acabou e o desenho ficou no muro por quase cinco anos. Acho
que transferi o carinho que tinha pelos personagens aos jogadores.
Além disso, havia todo
esse clima festivo e comunitário. Mesmo vizinhos que mal se falavam se cumprimentavam
alegremente enquanto estendiam as bandeiras nas janelas. Ouvíamos as pessoas
gritando do outro lado da rua.
Eu lembro de alguns
jogos, mas esqueci completamente a derrota. Não era exatamente um fã de
futebol, mas a empolgação da minha família, dos vizinhos e dos colegas de
escola contagiava. Tanto contagiava que esqueci do bode que ficamos depois de
Zidane ter sepultado nossas expectativas.
O engraçado é que a Copa de
98 ficou mais clara na minha memória como momento de confraternização do que a
de 2002. Talvez porque eu não tenha vivenciado em sua inteireza esta última – a
maioria dos jogos era transmitida bem tarde.
Cortamos para 2026 em
Macaé, Rio de Janeiro. Era maio e em três ou quatro finais de semana, as
pessoas bloquearam algumas ruas para poder pintar o asfalto e fixar as
bandeirinhas entre os postes. Coisa que não vi acontecer com tanto empenho nas
copas de 2018 e 2022. Isso me deixou cabreiro.
O natural era que essa
mudança me deixasse nostálgico, saudosista, afinal estava revivendo aquela
experiência que marcou minha infância, mas não, me deixou cabreiro. E eu
demorei a entender o motivo.
O estranhamento pode ter
origem política, afinal por um breve hiato os principais símbolos nacionais (a
bandeira, a camisa verde-amarela) foram cooptados pela extrema direita. Em 2018,
por exemplo, nossa rua teve uma decoração bem tímida em parte porque se
desejava evitar brigas entre os vizinhos.
Mas desde 2022 temos um movimento
de defesa da repatriação destes ícones, movimento esse que foi abraçado pelo
governo atual e ganhou novo impulso principalmente depois de Trump tarifar o Brasil.
Eu sei que a camisa, a
bandeira, o verde-amarelo não tem nada a ver com uma extrema direita que é
super patriota, mas com o país dos outros (seja EUA ou Israel). Eu também sei
que estes símbolos foram construídos apagando e desvirtuando muitos elementos
da nossa história. Mas é meio difícil, depois dos últimos anos, não associá-los
com um patriotismo rasteiro.
Enquanto o governo
defende a conciliação, o marketing injeta na mistura um otimismo tão anódino que
beira ao meme. Ronaldinho viaja no tempo, toma um chopp com Ancelloti e é
festa. Eu sei, nada mais chapa branca que um comercial da Brahma, mas cadê a
criatividade? Cadê o carisma?
Muitos argumentam que Neymar
é carismático. Tenho de discordar categoricamente. Ele tem marra, uma “panca de
valente” como diziam os mais velhos, mas que não se sustenta por mais de 40
minutos. Marra não é carisma. Nem todos conseguem aliar bem as duas, porque nem
todos são Romário.
Pensando em tudo isso,
acabei entendendo o que mais me incomodava nessa nova situação: não era o fato
de não terem feito nos anos anteriores, era o fato de se fazer esse ano com uma
dose cavalar de esforço. E o mais importante: não é uma iniciativa sincera e
orgânica.
Muitos tem dito, e de
forma muito melhor do que eu posso fazer aqui, que o 7x1 em 2014 tornou-se um marco
de nosso desencanto com o futebol, com a política e, principalmente, com o que
faz que nos percebamos como brasileiros. De repente, não somos mais os melhores
num esporte que nos consagrou internacionalmente quase tão ou mais que a nossa
música. Procuramos culpados e encontramos vários. Mas a solução sempre recaia na
cabeça de alguma mente iluminada – como Jorge Jesus – ou de algum talento nato –
como Neymar. Mas continuamos perdemos.
Até aí nada demais,
afinal perdemos em 1966, mas torcemos com garra em 1970. Idem em 1994, após a
fase desanimadora que vai de 74 a 90. E a mesma coisa em 2002, depois da
derrota em 98. Mas acontece que agora o torcedor não acredita mais na Seleção,
ele suspeita. Suspeita que ela pode ganhar. Ora, a suspeita é sempre mais sutil
e sub-reptícia. Ela é como o ditado do “confiar, desconfiando”.
No fundo, temos que ser
convencidos o tempo todo de que vale a pena continuar torcendo. O papel do
marketing e dos canais de entretenimento tem sido justamente esse de pingar o
colírio mágico nos olhos abertos com fitas adesivas segurando suas pálpebras,
no melhor estilo Laranja Mecânica.
Contudo, a coisa só tem
saído do plano das palavras para o das ações porque há uma mínima disposição da
maioria da população em acreditar no que é dito. Mas, como a realidade prova a
todo instante o contrário, resta apenas suspeitar.
Disposição essa que nasce
tanto do genuíno saudosismo sobre quem nós éramos, mas que também se confunde
com as práticas correntes em nossa “sociedade em rede”. Num mundo em que todos
podem (e são de certa forma) influencers, a Copa é vendida como conteúdo. Como
conteúdo e experiência. Mas uma experiência, claro, quantificável,
comercializável.
Decoração na Rua Santa Isabel em Manaus, AM, 2014. Portal Vermelho.
Na falta da energia e do
espírito esportivo, cerca-se dos acessórios e símbolos vinculados a ele no
passado. Como se nos munindo deles, o orgulho de ser brasileiro irradiasse de
fora para dentro. Assim, veste-se a camisa, coloca-se a bandeira na janela,
xinga-se os adversários no twitter...
O vínculo entre torcida e
Seleção está desgastado, assim como entre os jogadores e a própria camisa que
estão vestindo. Você pode dizer que é o caráter individualista dos craques, mas
como esperar algo diferente quando estes rapazes crescem e fazem sua carreira
num futebol que se orienta justamente para suprir as carências de times
europeus? E tanto vivemos em função do futebol europeu que ultimamente até os
treinadores temos importado de lá. Como se a salvação não fosse mais possível
pelas mãos de um brasileiro, mas de um português ou de um italiano.
E, para evitar qualquer
mal-entendido, não há salvação para o futebol nacional. Há, isso sim, trabalho.
E deve ser um mutirão, direcionado nas duas pontas desse problema: a relação
entre jogadores e o time e entre os torcedores e o time.
A dinâmica enfadonha dos
grandes times europeus, que se baseia em números, não funciona se não há engajamento
e disciplina, duas coisas que têm faltado em nossos jogadores. Claro,
acompanhamento psicológico pode ajudar, mas enquanto não se mexer na estrutura
do futebol que estamos praticando aqui, então nada feito, meu irmão.
Por outro lado, o torcedor
precisa aceitar a realidade: você pode se cobrir com o “manto” e colocar o
maior e melhor jogador do mundo lá, se não há entrosamento com o time e a
consciência de que ele sofrerá consequências esse craque será inútil.
Não, não estou defendendo
que esmurrem os jogadores assim que pisarem no Galeão. Simplesmente, não dá pra
continuar defendendo quem não dá prova de seu talento quando a circunstância
exige. Não é acolhendo o tempo todo que se ensina ao seu ídolo que ele precisa
melhorar. Alguma dúvida que a própria CBF obrigou Ancelotti a chamar Neymar por
que temia o burburinho negativo dos seus cultistas?
O torcedor brasileiro tem
capacidade de pressionar as principais instituições do futebol brasileiro, mas encontra-se
setorizado. Muitas vezes ele age não para que o time ganhe, mas para que seu
astro brilhe. Essa Copa foi a prova definitiva de que essa é a pior orientação
possível para quem não quer perder o título de pentacampeão.
Tostão escreveu numa ótima
crônica que “futuro não é destino”. Não é uma série de derrotas que sela a
nossa sina no futebol, mas sim a convicção de que não há nada a ser feito. Precisamos
mudar isso, seja como jogadores ou torcedores. Se não, nem a camisa mais vistosa,
nem a rua mais decorada vai adiantar alguma coisa.
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