POR QUE ESTAMOS USANDO VERDE-AMARELO (EM 2026)?

 



Rua Cuiabá em Osasco, SP, 2022, Patrícia Santos.

Era 1998 e eu estava morando em Sepetiba, zona oeste da cidade do Rio de Janeiro. Devia ser a primeira Copa do Mundo que estava vivenciando conscientemente.

Enfeitaram a rua com fitas verde e amarelas e minha tia desenhou os principais jogadores no muro em frente a nossa casa inspirando-se nos personagens dos meus gibis.

Ronaldinho Fenômeno era Zé Carioca, Cafu era o amigo dele, Nestor; acho que o Pato Donald era o Taffarel. A Copa acabou e o desenho ficou no muro por quase cinco anos. Acho que transferi o carinho que tinha pelos personagens aos jogadores.

Além disso, havia todo esse clima festivo e comunitário. Mesmo vizinhos que mal se falavam se cumprimentavam alegremente enquanto estendiam as bandeiras nas janelas. Ouvíamos as pessoas gritando do outro lado da rua.

Eu lembro de alguns jogos, mas esqueci completamente a derrota. Não era exatamente um fã de futebol, mas a empolgação da minha família, dos vizinhos e dos colegas de escola contagiava. Tanto contagiava que esqueci do bode que ficamos depois de Zidane ter sepultado nossas expectativas.

O engraçado é que a Copa de 98 ficou mais clara na minha memória como momento de confraternização do que a de 2002. Talvez porque eu não tenha vivenciado em sua inteireza esta última – a maioria dos jogos era transmitida bem tarde.


Decoração na rua Jorge Rudge em Vila Isabel, RJ, 1998, Hamilton Corrêa.

Cortamos para 2026 em Macaé, Rio de Janeiro. Era maio e em três ou quatro finais de semana, as pessoas bloquearam algumas ruas para poder pintar o asfalto e fixar as bandeirinhas entre os postes. Coisa que não vi acontecer com tanto empenho nas copas de 2018 e 2022. Isso me deixou cabreiro.

O natural era que essa mudança me deixasse nostálgico, saudosista, afinal estava revivendo aquela experiência que marcou minha infância, mas não, me deixou cabreiro. E eu demorei a entender o motivo.

O estranhamento pode ter origem política, afinal por um breve hiato os principais símbolos nacionais (a bandeira, a camisa verde-amarela) foram cooptados pela extrema direita. Em 2018, por exemplo, nossa rua teve uma decoração bem tímida em parte porque se desejava evitar brigas entre os vizinhos.

Mas desde 2022 temos um movimento de defesa da repatriação destes ícones, movimento esse que foi abraçado pelo governo atual e ganhou novo impulso principalmente depois de Trump tarifar o Brasil.

Eu sei que a camisa, a bandeira, o verde-amarelo não tem nada a ver com uma extrema direita que é super patriota, mas com o país dos outros (seja EUA ou Israel). Eu também sei que estes símbolos foram construídos apagando e desvirtuando muitos elementos da nossa história. Mas é meio difícil, depois dos últimos anos, não associá-los com um patriotismo rasteiro.


Rua decorada em Belo Horizonte,MG, 2022, Fernando Zuba

Enquanto o governo defende a conciliação, o marketing injeta na mistura um otimismo tão anódino que beira ao meme. Ronaldinho viaja no tempo, toma um chopp com Ancelloti e é festa. Eu sei, nada mais chapa branca que um comercial da Brahma, mas cadê a criatividade? Cadê o carisma?

Muitos argumentam que Neymar é carismático. Tenho de discordar categoricamente. Ele tem marra, uma “panca de valente” como diziam os mais velhos, mas que não se sustenta por mais de 40 minutos. Marra não é carisma. Nem todos conseguem aliar bem as duas, porque nem todos são Romário.

Pensando em tudo isso, acabei entendendo o que mais me incomodava nessa nova situação: não era o fato de não terem feito nos anos anteriores, era o fato de se fazer esse ano com uma dose cavalar de esforço. E o mais importante: não é uma iniciativa sincera e orgânica.


Rua 3 da Alvorada em Manaus, AM, 2026, Edmar Barros.

Muitos tem dito, e de forma muito melhor do que eu posso fazer aqui, que o 7x1 em 2014 tornou-se um marco de nosso desencanto com o futebol, com a política e, principalmente, com o que faz que nos percebamos como brasileiros. De repente, não somos mais os melhores num esporte que nos consagrou internacionalmente quase tão ou mais que a nossa música. Procuramos culpados e encontramos vários. Mas a solução sempre recaia na cabeça de alguma mente iluminada – como Jorge Jesus – ou de algum talento nato – como Neymar. Mas continuamos perdemos.

Até aí nada demais, afinal perdemos em 1966, mas torcemos com garra em 1970. Idem em 1994, após a fase desanimadora que vai de 74 a 90. E a mesma coisa em 2002, depois da derrota em 98. Mas acontece que agora o torcedor não acredita mais na Seleção, ele suspeita. Suspeita que ela pode ganhar. Ora, a suspeita é sempre mais sutil e sub-reptícia. Ela é como o ditado do “confiar, desconfiando”.

No fundo, temos que ser convencidos o tempo todo de que vale a pena continuar torcendo. O papel do marketing e dos canais de entretenimento tem sido justamente esse de pingar o colírio mágico nos olhos abertos com fitas adesivas segurando suas pálpebras, no melhor estilo Laranja Mecânica.

Contudo, a coisa só tem saído do plano das palavras para o das ações porque há uma mínima disposição da maioria da população em acreditar no que é dito. Mas, como a realidade prova a todo instante o contrário, resta apenas suspeitar.

Disposição essa que nasce tanto do genuíno saudosismo sobre quem nós éramos, mas que também se confunde com as práticas correntes em nossa “sociedade em rede”. Num mundo em que todos podem (e são de certa forma) influencers, a Copa é vendida como conteúdo. Como conteúdo e experiência. Mas uma experiência, claro, quantificável, comercializável.

                                         

                           Decoração na Rua Santa Isabel em Manaus, AM, 2014. Portal Vermelho.

Na falta da energia e do espírito esportivo, cerca-se dos acessórios e símbolos vinculados a ele no passado. Como se nos munindo deles, o orgulho de ser brasileiro irradiasse de fora para dentro. Assim, veste-se a camisa, coloca-se a bandeira na janela, xinga-se os adversários no twitter...

O vínculo entre torcida e Seleção está desgastado, assim como entre os jogadores e a própria camisa que estão vestindo. Você pode dizer que é o caráter individualista dos craques, mas como esperar algo diferente quando estes rapazes crescem e fazem sua carreira num futebol que se orienta justamente para suprir as carências de times europeus? E tanto vivemos em função do futebol europeu que ultimamente até os treinadores temos importado de lá. Como se a salvação não fosse mais possível pelas mãos de um brasileiro, mas de um português ou de um italiano.

E, para evitar qualquer mal-entendido, não há salvação para o futebol nacional. Há, isso sim, trabalho. E deve ser um mutirão, direcionado nas duas pontas desse problema: a relação entre jogadores e o time e entre os torcedores e o time.

A dinâmica enfadonha dos grandes times europeus, que se baseia em números, não funciona se não há engajamento e disciplina, duas coisas que têm faltado em nossos jogadores. Claro, acompanhamento psicológico pode ajudar, mas enquanto não se mexer na estrutura do futebol que estamos praticando aqui, então nada feito, meu irmão.

Por outro lado, o torcedor precisa aceitar a realidade: você pode se cobrir com o “manto” e colocar o maior e melhor jogador do mundo lá, se não há entrosamento com o time e a consciência de que ele sofrerá consequências esse craque será inútil.

Não, não estou defendendo que esmurrem os jogadores assim que pisarem no Galeão. Simplesmente, não dá pra continuar defendendo quem não dá prova de seu talento quando a circunstância exige. Não é acolhendo o tempo todo que se ensina ao seu ídolo que ele precisa melhorar. Alguma dúvida que a própria CBF obrigou Ancelotti a chamar Neymar por que temia o burburinho negativo dos seus cultistas?

O torcedor brasileiro tem capacidade de pressionar as principais instituições do futebol brasileiro, mas encontra-se setorizado. Muitas vezes ele age não para que o time ganhe, mas para que seu astro brilhe. Essa Copa foi a prova definitiva de que essa é a pior orientação possível para quem não quer perder o título de pentacampeão.


Moradores enfeitando a rua no Parque Regina, SP, 2022, Patrícia Santos.

Tostão escreveu numa ótima crônica que “futuro não é destino”. Não é uma série de derrotas que sela a nossa sina no futebol, mas sim a convicção de que não há nada a ser feito. Precisamos mudar isso, seja como jogadores ou torcedores. Se não, nem a camisa mais vistosa, nem a rua mais decorada vai adiantar alguma coisa.

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