IT'S THE END OF THE WORLD AS WE KNOW IT (and I feel fine)
Ame-o ou odeio-o, Christopher
Nolan hoje é um dos diretores fundamentais do nosso tempo. Não é dos melhores,
nem dos piores, mas sem dúvida ele moldou o cinema mainstream dos
últimos 20 anos.
A Odisseia, por
sua vez, é um dos textos fundamentais da cultura ocidental. Clássico, nos dois sentidos
do termo. Natural que todo grande contador de história se inspire nessa fonte.
O próprio Nolan segue bastante
do que as narrativas clássicas estabeleceram em toda sua filmografia. O
conceito de húbris, por exemplo, volta e meia dás as caras em seus roteiros. Húbris
é o orgulho, a arrogância, a confiança exagerada do herói que acaba cegando-o
sobre seu destino e desafiando os deuses.
Na trilogia de Batman,
todo filme praticamente usa desse expediente: a soberba de Bruce Wayne (“Batman
não tem limites”), de Harvey Dent e de James Gordon acaba sendo, mais para frente,
o fruto de suas ruínas. Os esquemas que preparam e seus segredos voltam para
desafiá-los. Oppenheimer deixa isso evidente desde o começo: um homem que
ajuda a produzir uma arma para acabar com a guerra, depois se vê torturado pela
repercussão de seus atos. Com Odisseu não seria diferente.
A trama originalmente
gira toda em torno da forma como Odisseus, após dar a ideia do cavalo de Tróia,
se vangloria de que um homem não precisa dos deuses, mas de sua própria
astúcia. Poseidon se ressente com tanta soberba e vai lançando o herói em várias
enrascadas antes dele conseguir voltar para sua Ítaca e salvar sua rainha,
Penélope, e seu filho, Telêmaco, de oportunistas.
Eu consigo ver o que deixou
Nolan tentado a adaptar a Odisséia. Lá está o protótipo de personagem
nolaniano, por excelência. A única coisa que impede ele de se encaixar cem por
cento no modelo do diretor britânico é seu carisma.
OK, vamos tirar o elefante
da sala (ou, melhor, o ciclope): a questão da fidelidade ao material original. O
ponto de realizar um filme sobre um texto que já foi exaustivamente discutido e
adaptado é trazer uma perspectiva nova. Mas, claro, sem perder os
elementos principais que guiam a obra.
Nesse sentido, podemos
dizer que Nolan acertou em dois pontos: a caracterização do protagonista e a
temática. E nesses mesmos pontos também se encontra o ponto fraco de seu filme.
Não na falta de criatividade nas escolhas visuais, não na ausência de apego à
fonte.
Se pudesse resumir
Odisseu em uma palavra seria “astucioso”. Ele é a pessoa mais esperta – repare,
a mais esperta e não a mais sábia – do panteão dos heróis antigos. Esperto e,
por consequência, engraçado. Naturalmente, isso o torna apaixonante. Mesmo
quando ele se mete numa enrascada, é divertido ver como ele contornará o
problema. Ele é o babaca que todos amam.
O Odisseu de Matt Damon dá
provas o tempo todo de como é inteligente, sempre pendendo mais para o lado
manipulador. Mas ele não é alguém que cativa o público. Na verdade, é até
difícil entender o porquê Penélope e Calipso se apaixonaram por ele.
A questão é que nesse
Odisseu a esperteza, que sem dúvida está lá, é ofuscada pela culpa. Ele é o
prefeito da coitadolândia (ou melhor, o rei). E nem é o tipo de culpa que acompanha
muitos heróis trágicos, é uma culpa cristã.
Sua culpa decorre do fato
de que ele está sempre sacrificando vidas em nome da guerra ou de voltar para
casa. Ora, a reputação dos heróis gregos estava geralmente condicionada com seu
compromisso com a batalha e a guerra em detrimento da família. E o Odisseu de
Homero não só adora participar da queda de Tróia, como só se arrepende de ter
ofendido os deuses e não de ter bolado uma estratégia tão insidiosa. Já o
Odisseu de Nolan é um veterano anti-guerra, ele está sempre recordando da
tomada de Tróia com morbidez e remorso.
Em parte, a mudança foi
feita para que ele se torne um protagonista menos problemático. Mas a culpa
cristã de Odisseu também serve ao propósito do subtexto do filme, que pretende
questionar a responsabilidade do homem ocidental na crise em que estamos
imersos no presente. O colapso da Idade do Bronze reverbera a crise do
Antropoceno.
Mas isso também tem
relação a um tema de fundo na obra de Homero. É possível dizer que a Odisseia
original usa os apuros de seu protagonista para ensinar o valor da humildade ao
homem. Não fosse os comentários soberbos frente ao mar, Odisseu nunca teria atraído
a ira de Poseidon. Há ainda um elemento subjacente tanto na Ilíada, que
aborda a Guerra de Tróia, quanto na Odisseia que é justamente a
hospitalidade – chamada pelos gregos de xênia e, no filme, de “lei de Zeus”.
Como eles comentam
algumas vezes ao longo da história, é importante ser gentil com os visitantes
porque eles podem ser deuses disfarçados, testando nosso caráter. Mesmo que não
seja o caso, ser um mau anfitrião e um mau visitante acarreta tragédias. Veja o
caso de Páris, que em visita a Esparta, fugiu com a esposa de seu anfitrião
levando à Guerra de Tróia. A questão em Odisseu é que ele é um visitante que se
aproveita da hospitalidade dos troianos para cometer um massacre e, ironia do
destino, sua família se torna refém de maus visitantes anos depois.
Muito sagaz de Nolan
explorar esse aspecto da Odisseia, porque ele guarda relação também com
o nosso presente. A arrogância de Trump na política externa, a proliferação dos
discursos de ódio, a crise climática acelerada por nosso comportamento
predatório com a natureza, tudo isso pode ser simbolizado pelo desrespeito com
a “lei de Zeus”.
Perceba: a afronta é
contra a “lei de Zeus” e não contra o próprio Zeus. No filme, a presença dos
deuses é sugerida, muito embora os monstros e as feiticeiras sejam bem
concretos. Atena pode ser uma alucinação ou só estar usando a feição de uma
vítima da guerra. Inclusive, uma coisa não elimina a outra. Os deuses nesse
universo existem, só que preferem ser invisíveis. De novo, temos aí uma fusão
com a teologia cristã, onde Deus é muito mais transcendente que imanente.
Nolan pega um aspecto que
está na obra original para conversar com seu humanismo liberal: se na trilogia Dark
Knight, Gotham está sempre à beira do abismo por causa dos arranjos
antiéticos que os “mocinhos” fazem, aqui a tragédia começa quando Odisseu fere
a confiança dos seus adversários e de seus seguidores; se em Interstellar,
os aliens que nos salvarão somos nós, na Odisseia os terríveis “povos do
mar” que destruirão tudo são os próprios homens de Odisseu.
Na realidade, o Odisseu pode
ser lido tanto como uma representação da civilização ocidental hoje quanto do
seu próprio realizador. Não nos esqueçamos que Christopher Nolan é celebrado
até hoje como o cara que tornou os filmes de super-herois respeitáveis. Desde
então, a “pegada realista” que tanto tem rendido nas obras de ficção científica
em geral é o “realismo nolanficado”. Mas acho que ele não se arrepende disso,
mas sim de ter incentivado o gênero de filmes super-heróis a se tornaram o que
são hoje, esse fenômeno cultural que parece arrastar a criatividade do cinema
para seu túmulo.
Mas voltando ao humanismo
apático de Nolan, mais uma vez ele se prova como uma verdadeira sinuca de bico. A
“lei de Zeus” não foi restaurada e tudo o que Odisseu pode fazer, além de matar
mais gente, é honrar seus mortos e navegar até o pôr-do-sol. Afinal, foi o que
a jornada ensinou a ele: saia do controle, pare de se culpar, entregue-se ao
acaso. Mas se os homens perderam a confiança uns nos outros, tudo o que os
homens podem fazer é... abster-se do problema?
Na Odisseia
original, Atena aparece depois do massacre e salva a pele do rei de Ítaca,
ordenando que ninguém se vingue das mortes ali cometidas – aliás, muitas delas foram
bem injustas, pois até os servos fiéis a Odisseu são mortos por ele e seu filho.
No universo de deuses
distantes de Nolan, onde os homens estão se destroçando, o que resta é fugir da
sociedade e esperar que tudo se conserte sozinho quando você voltar. Se não se
consertar, você precisa consertar sozinho e depois se mandar de novo.
E o engraçado é que essa
é a saída recorrente dos heróis do diretor. Ao fim da trilogia de Batman, Bruce
Wayne foge com Anne Hathaway; o astronauta de Interstellar descobre que
tem uma mega-família e a abandona para viver com Anne Hathaway; Na Origem
não tem Anne Hathaway, mas o protagonista foge mesmo assim.
Isso tudo faz da Odisseia
um filme ruim? Não, ele é bem interessante e divertido em alguns momentos – Polifemo,
o ciclope, e Circe, a bruxa que transforma os humanos em animais, são os pontos
altos para mim - , mas sinto que ele parece um épico envergonhado. A
aventura está lá, mas tudo é tão carregado de culpa e de um humanismo tão
frágil que não temos a celebração da vida que costuma acompanhar o gênero. As
vitórias de Odisseu são derrotas morais e quando ele finalmente realiza uma
vitória física e moral, ela é insossa. É um filme bom, mas sem sal. Talvez em alguns anos, quando voltamos de Ítaca (ou do fim do mundo) ele se torne um filme fundamental.
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